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Monday, April 16, 2012

Revista de Estudos Universitários Compartilhando Vidas e Escape UNISO.

Vidas em Escape

E
Alda Regina Tognini Romaguera*
Antonio Carlos Rodrigues de Amorim**
Recebido em: 29 ago. 2011                                               Aprovado em: 10 set. 2011
* Doutora em Educação pela Unicamp, Campinas, SP, Brasil. Leciona e orienta professores
e m   f o r m a ç ã o   n a s   m o d a l i d a d e s   p r e s e n c i a l   e   a   d i s t â n c i a .   E - m a i l :
aldaromaguera@hotmail.com
**  Doutor em Educação e Livre Docente pela Unicamp. Professor Associado da
Universidade Estadual de Campinas. Av. Bertrand Russell, 801. Cidade Universitária Zeferino
Vaz. Cep. 13083-865 - Campinas, SP, Brasil. E-mail: acamorim@unicamp.br
Resumo: Este ensaio provoca pensamentos a buscar por ideias-vida que não se deixem
aprisionar pelas estruturas de poder. Alia-se a conceitos da filosofia da
diferença em Deleuze e alguns de seus leitores, para pensar formas de vida
outras, que escapem às definições, aos mapeamentos, que não se regulem
pelas normas, posto que se mostrem inéditas, indecifráveis... Propõe-se a
conversar com a arte em obras do bioartista Eduardo Kac e a contrapor ao
conceito de biopolítica, a potência “zoè” da vida, essa vida experimentada
sem limitações. E problematiza: é possível pensar a bioarte e a manifestação
estética da vida enquanto possibilidade de escape às políticas bio?
Palavras-chave: Vida. Bioarte. Biopolítica.
LIVES AND (IN) ESCAPE
Abstract: This essay provokes thoughts to seek life-ideas that do not allow themselves
to be imprisoned by power structures. It allies to Deleuze’s philosophy of
difference concepts and some of his readers to think about other life forms,
which escape from the definitions, the mappings, that are not governed by
the rules, since that may be unique, unbreakable ... The paper intends to
make a conversation with the art works of the bioartist Eduardo Kac and
suggests as alternative to the concept of biopolitics, the “Zoe” life power,
experienced life without limitations. And it problematizes: is it possible to
think of bioart and the aesthetic manifestation of life as a possibility of
escape from the politics bio?
Key words: Life. Bioart. Biopolitcs.2 0 4
REU, Sorocaba, SP, v. 37, n. 2, p. 203-217, dez. 2011
Alda Regina Tognini Romaguera / Antonio Carlos Rodrigues de Amorim
VIDA(S)
Não tem um, tem dois
Não tem dois, tem três
Não tem lei, tem leis
Não tem vez, tem vezes
Não tem Deus, tem deuses
Não há sol a sós
Aqui somos mestiços mulatos
Cafuzos pardos tapuias tupinamboclos
Americarataís yorubárbaros
Somos o que somos
Inclassificáveis
1
Vidas e(m) escape nos impulsiona a ensaiar pensamentos, ideias-vida
menos conectadas ao campo das representações, que não se deixem
aprisionar pelas estruturas de poder. Coloca sob suspeita a estruturação
que o pensamento lógico faz do humano e do mundo, e trabalha com a pulsão
energética da arte, com a ideia de arte enquanto pulsão de criação e de força/
potência em Nietzsche.

Pretende extrair da vida sua força de movimento com Deleuze, para quem os
corpos se constituem em “afectos e movimentos locais, velocidades diferenciais”
(DELEUZE, 1997, p. 47). Trazer exemplos de criação de vida com a arte, que nos
levem a ensaiar o escape às definições, aos mapeamentos. Pensar vidas que não
se regulem pelas normas, posto que se mostram inéditas, indecifráveis... Vidas
inclassificáveis. Pensar o transumano, exercitando uma perambulação para
perceber “metamorfoses ambulantes”.

Assume com Agamben (2002), que a vida pode movimentar-se em manifestações
biológicas, no sentido que lhe confere a palavra bíos: vida formalizada de um
grupo ou de um indivíduo; como o animal-homem, ser exemplar da polis, que vive
em relação com outros, que pratica linguagens e exercita a liberdade. Bíos entendido
como “vida caracterizada”, a forma ou maneira de viver própria de um singular
ou de um grupo, a vida de um indivíduo determinado ou um tipo de vida que toca
os contornos, os traços característicos de uma vida específica, as linhas fronteiriças
que distinguem um vivente de outro.

1 Composição de Arnaldo Antunes, na voz de Ney Matogrosso, no CD “Inclassificáveis”, 2008.2 0 5
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VIDAS E(M) ESCAPE

Vida movimenta-se ainda na palavra grega zoé, que nomeia o simples ato de
viver, comum a todo vivente; aquilo que os homens dividem com os animais, fato
biológico, vida natural. A vida no sentido amplo, que transcende os atributos de
uma vida individual. O significado de Zoè é vida em geral, sem caracterização
ulterior.  É a vida considerada sem adstrição de qualquer característica e
experimentada sem limitações.
Para Zourabichvili (2004, p. 61), citando Deleuze, a vida é:

[ . . . ]   uma  mu l t i p l i c i d a d e   d e   p l a n o s   h e t e r o g ê n e o s   d e   e x i s t ê n c i a ,
repertoriáveis segundo o tipo de avaliação que os comanda ou os anima
(distribuição de valores positivos e negativos); e essa multiplicidade
atravessa os indivíduos mais do que os distingue uns dos outros (ou
ainda: os indivíduos só se distinguem em função do tipo de vida
dominante em cada um deles).

O vitalismo assume duplo caráter, ao referir-se por um lado à postulação de um
“princípio vital” como razão última do vivente, presente no pensamento das ciências
naturais no século XVIII, configurando-se enquanto crença que foge a qualquer
esforço verdadeiro de explicação. Por outro lado, responde ao culto da vitalidade,
difundido na Europa no fim do século XIX, que gesta a vida fascista em suas
práticas ao invocar os direitos superiores da vida e o gênio da raça, do povo ou do
indivíduo.

Deleuze não pensa um conceito de vida em geral. Antes lhe interessa o caráter
diferenciado-diferenciável, que exclui o recurso à vida como valor transcendente
independente da experiência, preexistente às formas concretas e trans-individuais
nas quais é inventada. Deleuze chama mais especificamente vida ou vitalidade
“aquela entre essas formas em que a vida - o próprio exercício de nossas faculdades
- se quer a si mesma: forma paradoxal, a bem da verdade, mais próxima do
informe” (ZOURABCHIVILI, 2004, p. 61). Em O Vocabulário de Deleuze, Zourabchivili
apresenta a concepção deste filósofo, que trabalha com a vida não-orgânica,
expressão tomada de Worringer, aliada ao “corpo sem órgãos” de Artaud, e a
Bergson, para quem a vida como movimento se aliena na forma material por ela
suscitada.

Dizendo com Foucault: vida humana, politizada. Contrapondo com: política
inscrita nos corpos de cidadãos, e não animais em cuja política está em questão a
vida de seres viventes.

Toda tentativa de repensar o espaço político do Ocidente deve partir da
clara consciência de que da distinção clássica entre zoè e bíos, entre2 0 6
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vida privada e existência política, entre homem como simples vivente,
que tem seu lugar na casa, e o homem como sujeito político, que tem seu
lugar na cidade, nós não sabemos mais nada (AGAMBEN, 2004, p. 192).
Vida privada e existência política poderiam se movimentar na trilogia filosofia/
arte/ciência? Ao abraçarmos as sensações, espaço de criação de outras formas
possíveis de vida como força de inscrição de sentido, é possível repensar uma
vida em transformação, em movimento?

Ainda com Agamben (2004, p. 194):
Se denominamos forma-de-vida este ‘ser’ que é somente a sua nua
existência, essa vida que é sua forma e que permanece inseparável desta,
então veremos abrir-se um campo de pesquisa que jaz além daquele
definido pela intersecção de política e filosofia, ciências médico-biológicas
e jurisprudência. Mas antes, será preciso verificar como, no interior das
fronteiras destas disciplinas, algo como uma vida nua possa ter sido
pensada, e de que modo, em seu desenvolvimento histórico, elas tenham
acabado por chocar-se com um limite além do qual elas não podem
prosseguir, a não ser sob o risco de uma catástrofe biopolítica sem
precedentes.

Nas fronteiras entre a Filosofia, que cria conceitos, saberes, entre a Ciência
que faz prospecções, e a Arte, que cria perceptos e variedades afetivas, é possível
evitar uma catástrofe biopolítica sem precedentes?

SER/ESTAR VIVO
Lagartas encasuladas: devir-borboletas, metamorfose ambulante. Homem
mutante: devir-barata, devir-mosca, devir-robô, tributo a Kafka, Raul Seixas,
David Cronenberg, Isaac Azimov. Devir-flor... elogio a Eduardo Kac.
Populações trans: sexuais, gênicas, mutantes, que sofrem “mudança completa
de forma, natureza ou de estrutura; transformação, transmutação”. Na biologia,
definida como “mudança relativamente rápida e intensa de forma, estrutura e
hábitos que ocorre durante o ciclo de vida de certos animais”. Metamorfose ainda
significa “mudança de aparência, caráter, circunstância etc”. Em sentido figurado,
designa “mudança completa de uma pessoa ou de uma coisa”.
2

Estado de mudança, para a condição mutante de pessoas e coisas, como
possibilidade de perambular por alguns dos conceitos que abordam o humano na
contemporaneidade, considerando suas multiplicidades.
1
Trechos entre aspas retirados do Dicionário Houaiss para o vocábulo Metamorfose.
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Contrapor à expressão “ser vivo”, a possibilidade de um “estar vivo”: estado
de vida efêmero, fugaz, superficial, que não se pretende estável e imutável, antes
se quer híbrido, mutante. Justificando, com Agamben (1993, p. 52):

Porque se os homens, em vez de procurarem ainda uma identidade própria
na forma agora imprópria e insensata da individualidade, conseguissem
aderir a esta impropriedade como tal e fazer do seu ser-assim não uma
identidade e uma propriedade individual, mas uma singularidade sem
identidade, uma singularidade comum e absolutamente exposta, se os
homens pudessem não ser-assim, não terem esta ou aquela identidade
biográfica particular, mas serem apenas o assim, a sua exterioridade
singular e o seu rosto, então a humanidade ascederia pela primeira vez a
uma comunidade sem pressupostos e sem sujeitos, a uma comunicação
que não conheceria já o incomunicável.

No ensaio “As dobras ou o lado de dentro do pensamento (Subjetivação)”,
escrito em 1986, Deleuze parte de um impasse foucaultiano: como ultrapassar a
linha que aprisiona a vida ao poder? Se o ponto de concentração de energia da vida
se localiza no choque com o poder; se os centros difusos de poder se localizam no
primado da resistência; se ao tomar a vida ao poder, cria-se a condição de
possibilidade para uma vida que resiste ao poder; e se essas relações transversais
de resistência não param de derrubar os diagramas e reestratificam em nós de
poder?

Dobra deleuzeana: o poder sobre a vida - biopoder - traça linhas transversais
de resistência da vida ao poder, e subverte essa relação de forças. Mas a vida,
potência do lado de fora, enquanto força que resiste, escapa às armadilhas do
diagrama, e não para de se transmutar. Armadilhas que se anunciam no duplo
Morte/Memória. Como escapar ao vazio aterrorizante e não se deixar aprisionar
pela distribuição de mortes parciais? Pelo movimento que arranca o lado de fora
do vazio, que o desvia da Morte.

Pela “absoluta memória, potência de vida que concebe, com Bichat, a
morte coextensiva à vida, esta que é feita de uma multiplicidade de mortes
parciais e singulares. A morte se multiplica e se diferencia para dar à vida
as singularidades, as verdades que acredita dever à sua resistência”
(DELEUZE, 1988, p. 102).

Que forças vivas se apresentam e gestam novas sociabilidades, novas
sensibilidades?
Para Foucault, referindo-se à ideia de Canguilhem: o biopoder e os processos
de subjetivação revelam-se enquanto matrizes da dessubjetivação, quando este

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Alda Regina Tognini Romaguera / Antonio Carlos Rodrigues de Amorim
autor apresenta outra maneira de abordar a noção de vida - por uma filosofia do
erro, em oposição à filosofia do sentido, do sujeito e do vivido. Ainda com Foucault,
é possível perguntar: “Será que toda a teoria do sujeito não deve ser reformulada,
já que o conhecimento, mais do que se abrir à verdade do mundo, se enraíza nos
‘erros’ da vida?”. (FOUCAULT, 2005, p. 366)

O capitalismo, pela voz de Foucault, instaura técnicas de poder que controlam
a multiplicidade dos homens; se as técnicas disciplinares atuam sobre os corpos,
esquadrinhando espaços, controlando deslocamentos, as biopolíticas atuam sobre
a espécie humana, temporalmente. Em História da Sexualidade, volume I, lê-se:
“A vida já não é mais um substrato inacessível que acontece de tempo em tempo
na aleatoriedade da morte e da sua fatalidade: parte dela passa pelo campo do
conhecimento, do controle e da esfera de intervenção do poder” (FOUCAULT, 1998,
p. 142).

Há que se contrapor ao conceito de biopolítica, a potência zoè da vida, essa
vida experimentada sem limitações - é possível pensar a bioarte e a manifestação
estética da vida enquanto possibilidade de escape às biopolíticas? Se o conceito
de “vida nua”, derivado do filósofo italiano Giorgio Agamben, refere-se ao espaço
altamente artificial que as estruturas de poder geram ao excluir da proteção jurídica
as formas de vida que não se submetam à sua ordem, como controlar essa vida
em estado de ilegalidade, nua e crua, que escapa pela visibilidade?

BIOARTE
Decifração do genoma, organismos transgênicos, clonagem, terapia clônica,
medicina genética. Dilemas que levam um crescente número de artistas, situados
nas intersecções da arte e biologia, a produzir obras em múltiplos contextos.
Se na contemporaneidade se dissolvem as dicotomias entre local e remoto,
humano e não-humano, vivo e máquina, a arte transgênica se constitui enquanto
uma dentre as manifestações estéticas dessa condição contemporânea. Novos
indivíduos vivos, que existem por conta própria, compartilham espaços sociais
conosco.

Exercer o andarilho peregrinar por diversas obras da bioarte, e escolher, dentre
imagens, aquelas que brincam com a invenção de outras vidas. Pretender extrair
delas potência para pensar criação e vida, tornando estes conceitos vazios de
significados, talvez desejando que deles se desaprenda a plenitude dos sentidos,
talvez desejando que deles se desprenda sua virtualidade. Vida ciborgue, plugada,
tudo é vida, transumana. Arte úmida, transgênica, que mexe com a vida lá onde
não se enxerga a vida; na vida-micro, que depende de contato, a vida viral se
movimenta em fluxos. Isto traz outra potência para a ideia de biopolítica, ao
pensar esse deslocamento de força, que antes estava no olho e que depende da
criação de uma imanência: um calor...

Pensar a biopolítica em relação de contato/contágio com sentidos de vida,
educação e arte. Pensar as estratégias biopolíticas em relação de contato/contágio
com sentidos de vida-zoè e arte. É possível movimentar dimensões da invenção
no encontro entre tecnociência e vida, em sua aproximação com o campo da
estética artística?

A condição biopolítica do capitalismo globalizado e as obras da bioarte - criadas
por Eduardo Kac - trazem outras possibilidades de pensar a resistência enquanto
manifestação social para escapar ao controle, provocando encontros de vidas
singulares na contemporaneidade. Instiga-nos a pensar movimentos, vida em
movimento para quem sabe pensar uma vida qualquer, na potência da virtualidade.
Provoca-nos a movimentar a vida pela pulsão da arte: a arte-vida e a política-vida
pensadas como pulsos, como aquilo que se espalha, bifurca.

Exercitar andanças, perambulações, por estes conceitos, querendo pensar em
subjetivações do agora, que conectam gentes e coisas, objetos-quase, habitantes
do ciberespaço praticando interatividades replicantes, maquínicas.
* * *
Eduardo Kac é brasileiro de origem, carioca, nascido em 1962, e vive desde
1989 nos EUA, onde leciona e pesquisa. Um dos mais renomados artistas envolvidos
na criação com novas mídias, é reconhecido internacionalmente por suas instalações
interativas, que dão visibilidade a novos conceitos na arte contemporânea.
Diferentemente de outros bioartistas que optam por manifestações do bizarro,
entre outras, suas composições revelam uma idéia de beleza proveniente da estética
clássica, que se manifesta na brancura do coelho, no vermelho dos veios da flor. O
fio condutor da criação artística de Kac pode ser capturado pelo conceito da vida
codificada na natureza.

Tornou-se cidadão do mundo pela projeção de suas criações, que nas últimas
décadas transitam entre obras que vão da holografia à telepresença, à robótica, à
bioarte e à arte transgênica - exploração de material genético para criação de
vida.
Inspiradas pela ciência, sobretudo pela biologia e pela genética, estas obras
despertam questões éticas, sociais e estéticas. Kac trabalha com múltiplos
materiais, que abrangem diversas linguagens: é poeta, escritor, pintor, escultor,
criador de seres vivos, o que amplia a divulgação dos conceitos que quer discutir.

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Desde os seus primeiros experimentos, nos quais convergem o digital e o biológico,
investiga as dimensões políticas e filosóficas dos processos de comunicação. Kac
(2008) explicita estas intenções em uma entrevista:
Crio obras de arte que vêm do meu universo próprio, individual, subjetivo
e poético. Estas obras buscam produzir uma ressonância emocional e
cognitiva com espectadores e participantes. Ao mesmo tempo, levanto
questões fundamentais sobre o que significa ser humano no século
vinte e um em diante.
Eduardo Kac (2008) chama a atenção para uma ética dentro da estética, sem
precedentes e que abre um novo campo para arte, com implicações evolucionárias
reais (ou seja, por ser viva participa da evolução das espécies):
Na minha visão, o artista não cria objetos e sim sujeitos. Isso desperta
uma nova dimensão ética na arte. Meu trabalho cria no presente uma
nova área para a arte, ao mesmo tempo em que estimula a sociedade a
questionar como irá se preparar para receber novos cidadãos que serão,
eles próprios, clones e transgênicos (KAC, 2008).
* * *
Os biótopos da série “Specimen of secrecy about marvellous discoveries”
(Espécime de segredo sobre descobertas maravilhosas) são ambientes criados
pelo artista Eduardo Kac em um meio de cultura contido numa espécie de
exoesqueleto, que também funciona como moldura. Cada biótopo é definido como
um corpo, um indivíduo com sua própria identidade. Em Ecologia, um biótopo ou
ecótopo (do grego  âéïò - bios = vida + ôüðoò = lugar, ou seja, lugar onde se
encontra vida) é uma região que apresenta regularidade nas condições ambientais
e nas populações animais e vegetais, das quais é o habitat. Um ecossistema
corresponde a um conjunto formado por dois elementos em interação constante:
um ambiente de natureza físico-química, abiótico e bem delimitado no espaço e
no tempo, a que se chama BIÓTOPO, e o conjunto de seres vivos, ou BIOCENESE,
que habita esse biótopo. Constitui o elemento funcional de base da biosfera;
mantêm-se por intermédio de um fluxo de energia e de matéria entre estas
diferentes componentes em interação permanente.
Nos dizeres de Kac:
“Cada   t r aba lho  é   t anto uma   ent idade   s ingul a r,   como nós ,   e  uma
comunidade de células e microorganismos, como eu e você. Assim como
f a z em  em nos so  corpo,  humano,   e s s a s   enorme s   comunidade s  de
microorganismos do biótopo interagem entre si e, como uma unidade,
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interagem com o ambiente. É um trabalho que sempre muda, pois, é
literalmente vivo” (KAC, 2008).

PLANTIMAL, HOMOPLANTA, PLANTASAPIENS...
Edúnia: Eduardo com Petúnia...
Criação bioartística de nova forma de vida, invent-ação viva de um ser que
não é encontrado na natureza.
Criação de sujeitos fazendo brotar a poética da contiguidade da vida entre as
diferentes espécies e despertando uma dimensão ética na arte.
Um estado de vida coabitado, trans-formado, trans-codificado e trans-gênicamente manipulado.
Uma flor criada através de engenharia genética que expressa o DNA de Kac
exclusivamente em suas veias vermelhas. No site do artista encontramos a
descrição desta criatura:

Ela tem veias vermelhas e pétalas cor de rosa. Um gene do artista é
expresso em todas as células de suas veias vermelhas, isto é, o gene de
Kac produz uma proteína somente na rede venosa da flor.  O gene foi
isolado e sequenciado a partir do sangue do artista. As pétalas cor de
rosa, contra as quais as veias vermelhas são vistas, são evocativas do
próprio tom de pele rosada de Kac. O resultado desta manipulação
molecular é uma planta que cria a imagem viva de sangue humano
correndo nas veias de uma flor (KAC, 2009).

Vida e(m) estado de hibridismo que nos provoca a pensar com Kac: Plantimal?
Homoplanta? Plantasapiens? A flor gente/planta/bicho escapa aos aprisionamentos
identitários que insistem em nomeá-la e revela sua multiplicidade, na mistura
genética. Edúnia é, ao mesmo tempo em que está. Está planta em estado de gente,
está gente em estado de planta, está cores em estado de gene, está imagem viva de
sangue humano correndo nas veias de uma flor. E neste(s) estado(s) é que cria
escapes ao aprisionamento das políticas bio, resistindo ao controle e ensaiando
outros jeitos de estar no mundo. Busca do artista, pela dimensão da criação, por
outras relações entre vidas. A arte provocando a sociedade, num convite a se preparar
para receber novos cidadãos que serão, eles próprios, clones e transgênicos.
De 2003 a 2008, Kac desenvolve História Natural do Enigma, que se compõe de
uma série de projetos; esta obra visitou o Brasil como parte da exposição “Eduardo
Kac: Lagoglifos, Biotopos e Obras Transgênicas”, no espaço “Oi Futuro”, de janeiro
a março de 2010, no Rio de Janeiro.

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A flor é um novo tipo de Petúnia que Kac inventou e produziu através de
biologia molecular. O gene que Kac selecionou de seu próprio genoma é
responsável pela identificação de corpos estranhos. Ou seja, nesta obra,
é precisamente aquilo que identifica e rejeita o outro que o artista integra
no outro, criando assim uma nova espécie de ser que é parcialmente flor
e parcialmente humano.

“História Natural do Enigma” é uma reflexão sobre a contiguidade da
vida entre as diferentes espécies. Usa a vermelhidão do sangue e a
vermelhidão das veias da planta como um marcador do nosso patrimônio
comum. Na expectativa de um futuro no qual Edunias sejam acessíveis e
plantadas por toda parte, Kac criou um conjunto de “Edunia Seed Packs”
(Pacotes de Sementes da Edunia), que estão incluídos na exposição.  Os
“Edunia Seed Packs” contêm as sementes da Edunia e fazem parte da
coleção permanente do Museu de Arte Weisman (KAC, 2009).

O mundo das artes problematiza e multiplica representações para o ser vivo, a
máquina, o humano e o ser inanimado e abre possibilidades para pensar humanos
e vidas outras, na proliferação de possibilidades como as do campo da bioarte.
Para Eduardo Kac (2006, P. 253) “a bioarte é uma arte feita com um meio de
criação que se envolve com a história do planeta, que é a vida”. E a vida é enquanto
vida alguma coisa que não para de se transformar, dirá Deleuze com Bergson.
Bioarte, arte biológica e arte genética. Dilemas que levam um crescente número
de artistas situados nas intersecções da arte e biologia, a produzir obras em
múltiplos contextos. Realizações no campo da biologia contribuem para a
compreensão e controle potencial do mundo orgânico, incluindo o corpo humano.
Pode-se dizer com o Deleuze de “Imanência: uma vida...”. “Vida, imanência
absoluta, pura potência, de onde brota uma possibilidade: a do ser em si,
simplesmente: tantum”.

Se uma obra de arte revela o universo poético do artista - traduzindo o mundo
por ele criado -, na plataforma estética da arte transgênica encontra-se a criação
de outras formas de vida, artificiais, que não existem na natureza. Eduardo Kac
se apropria de instrumental genético para criar, fazer pulsar, a partir da arte,
outras possibilidades de contato que promovem encontros híbridos entre os seres.
Vida na biologia: organismo, vida organizada – ambientes de micro vida,
biótopos, que interagem com gente – vida em estado de arte, vida reagente,
mutante, não sujeito, borbulhas de vida – telas, quadros – comunidade fugaz,
instantânea, que não se aprisiona, incorpórea, é organismo que se desorganiza;
transformação de vida biológica em arte.

Kac pensa e nos faz pensar sua obra, criação de vida, em todas as suas
dimensões: discursiva, afetiva, perceptiva, interativa, dando ênfase ao que há
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de novo na obra, porque é aí que se encontra o domínio da invenção e da
imaginação. Com ele, é possível trabalhar com a idéia de arte como pulsão de
criação e de força/potência, e considerar as obras de arte em sua relação com a
tecnociência, elegendo as dimensões da obra que são filosóficas e culturais: estética
relacional. Nos dizeres de Kac (2004a, p. 35),
Invenção e modificação da vida pelo artista, para fazer a obra de arte.
Ética performativa: experiência ética colocada pelo artista como elemento
primário da plataforma estética; quando a obra desempenha uma ação
ética deliberada, a ação ética e a ação estética estão integradas já no
nascedouro da obra, não a posteriori.

Seleção e mutação apresentadas como importantes forças evolucionárias. Kac
coloca a comunidade científica, artística e a sociedade em geral frente ao dilema
ético em evidência na contemporaneidade: o homem-deus que enfrenta, desafia,
surpreende e domina a vida: evolução transgênica... Trabalha com a proposta de
um sujeito-arte, em oposição à idéia de objeto na arte, enfatizando aspectos não
tão visíveis da obra: A arte transgênica é um modo de inscrição genética que está
ao mesmo tempo dentro e fora do campo operacional da biologia molecular,
negociando o terreno entre ciência e cultura.

Viver agora é também captar indícios da existência de outro humano, o que
leva ao reconhecimento de outra biologia que configura o humano, que se mostra
na relação do controle e da resistência que as obras de arte transgênica oferecem.
Para ele, a questão da genética não é pura e simplesmente problema científico,
mas está diretamente ligada aos aspectos políticos e econômicos. Precisamente
por esta razão, o medo desenvolvido pelo abuso real e potencial desta tecnologia
deve ser canalizado produtivamente pela sociedade. Em vez de abraçar uma cega
rejeição da tecnologia, o que já é indubitavelmente parte das novas bio-políticas,
cidadãos de sociedades abertas deveriam, segundo Kac, fazer um esforço para
estudar as múltiplas visões do assunto, aprender sobre a herança histórica em
torno dessa discussão, entender o vocabulário e o principal significado dos esforços
das pesquisas. Deste debate resultaria o desenvolvimento de visões alternativas
baseadas em idéias autônomas, o que levaria a um esforço para gerar entendimento
mútuo. Embora isso pareça uma tarefa desanimadora, conseqüências drásticas
podem resultar da publicidade enganosa, de antagonismos ou manifestações de
indiferença pela sociedade. Kac considera que é neste aspecto que a arte pode ser
também de grande valor social. Desde o lugar em que a dominação da arte é
simbólica, até quando ela intervém diretamente num contexto dado, a arte pode:

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[...] contribuir para revelar implicações culturais de revoluções e oferecer
diferentes caminhos de pensar sobre e com a biotecnologia. A arte
transgênica pode ajudar a ciência a reconhecer o papel de questões
relacionais e comunicacionais no desenvolvimento de organismos. Pode
ajudar a cultura desmascarando a crença popular de que o DNA é a
“molécula-mestra”, através de uma ênfase no organismo como um todo
e o ambiente (o contexto). E finalmente, a arte transgênica pode contribuir
no campo da estética por abrir uma nova dimensão simbólica e objetiva
da arte como criadora literal da vida e responsável pela vida criada (KAC,
2002, p. 46).

Eduardo Kac cria interfaces da biologia com a tecnologia e a filosofia, na
expressão de obras de arte transgênicas:

Eduardo Kac irá, então, mergulhar no campo da biologia e da genética –
onde pode evidenciar mais claramente esta dissolução da fronteira entre
os organismos reais e virtuais – e criar o que irá chamar de Arte
Transgênica. O artista parte dos pressupostos de que a pele já deixou de
ser a barreira imutável que contém e define o corpo no espaço, tornandose um lugar de constante transmutação (vide as inúmeras possibilidades
das cirurgias plásticas cada vez mais acessíveis); e de que, mais do que
tornar visível o invisível, a arte deve possibilitar a consciência do que
permanece para além do visual, mas que de fato nos afeta diretamente. A
Arte Transgênica que propõe irá possibilitar uma relação dialógica entre
o artista, a criatura/obra de arte, e aqueles que irão manter contato com
ela (LEVY, 2010, p. 69).

Retornamos às perguntas-sensações que acompanham este ensaio: se na
contemporaneidade nos tornamos outros, híbridos e mutantes – descendentes de
tantos mundos quantos os que pudermos criar, por que estes corpos plugados
ainda insistem em manter conexões de outrora, em instituições que nos colocam
frente às relações dualistas, paradoxais? Aproximações estéticas permitem trazer
a arte transgênica para pensar uma nova noção de vida ou buscar por outras
relações com a vida, de-subjetivada? Que outros encontros podem acontecer entre
o humano e o inanimado?

Transitar pelas obras de Kac abre possibilidades de pensar a vida, na dimensão
da invenção, ainda que este conceito surja fortemente acoplado à noção de sujeito,
no campo das representações. Gera um começo, ponto de partida para levantar
questões a respeito da vida na contemporaneidade. Porém, ao tentar aproximar
suas criações das discussões e conceitos filosóficos contemporâneos, o que emergiu
foi ainda a organicidade, a corporeidade...
Dizendo com Pélbart:
Alda Regina Tognini Romaguera / Antonio Carlos Rodrigues de AmorimREU, Sorocaba, SP, v. 37, n. 2, p. 203-217, dez. 2011
2 1 5
“O bios é redefinido intensivamente, no interior de um caldo semiótico e
maquínico, molecular e coletivo, afetivo e econômico. Aquém da divisão
corpo/mente, individual/coletivo, humano/inumano, a vida ao mesmo
tempo se pulveriza e se hibridiza, se moleculariza e se totaliza” (PELBART,
2003, p. 26).
Kac pensa a criação na vida, da vida, na arte, da arte. Traz possibilidades de
pensar em outros territórios que não os da ciência, dando visibilidade a outro percurso para questões éticas e estéticas. Pela bioarte, provoca, questiona a transformação de vidas.
Seleção e mutação apresentadas como importantes forças evolucionárias. Kac
coloca a comunidade científica, artística e a sociedade em geral frente ao dilema
ético em evidência na contemporaneidade: o homem-deus que enfrenta, desafia,
surpreende e domina a vida: evolução transgênica... Trabalha com a proposta de
um sujeito-arte, em oposição à ideia de objeto na arte, enfatizando aspectos não
tão visíveis da obra: “A arte transgênica é um modo de inscrição genética que
está ao mesmo tempo dentro e fora do campo operacional da biologia molecular,
negociando o terreno entre ciência e cultura” (KAC, 2004).

Uma arte que traz a possibilidade de fissura, de sentidos em escape e de
virtualidade para pensar vida, ciência e biotecnologia... Seria a bioarte uma
manifestação da criação de vida da multidão? Arte singular, que se manifesta no
comum produzindo uma vida. Vida e arte em constante movimento, deslocandose entre os conceitos que lhe são atribuídos e tantos outros cruzamentos, em
misturas pulsantes, híbridas, contínuas, gerando singularidades. A potência de
vida na arte em conexão com a aposta de vida singular no pensamento filosófico
deleuzeano: vida não-orgânica, incorpórea, inorgânica. Ideia de vida que não se
efetua, que está sempre  em escape. Menos ser, mais devir; transformação,
nômade, vida pra além do encontro dos corpos, vida que é pensamento, pensamento
que é indizível.

Kac cria e faz pensar a criação de vida, em todas as suas dimensões: discursiva,
afetiva, perceptiva, interativa. Sua ênfase está no que há de novo na obra, porque
é aí que se encontra o domínio da invenção e da imaginação. Com ele, é possível
trabalhar com a ideia de arte como pulsão de criação e de força/potência, e
considerar as obras de arte em sua relação com a tecnociência, elegendo as
dimensões da obra que são filosóficas e culturais: estética relacional. Nos dizeres
de Kac em entrevista para a revista online Interact, realizada por ocasião dos
Encontros de Arte e Comunicação (Junho de 2005):

VIDAS E(M) ESCAPEInvenção e modificação da vida pelo artista, para fazer a obra de arte.
Ética performativa: experiência ética colocada pelo artista como elemento
primário da plataforma estética; quando a obra desempenha uma ação
ética deliberada, a ação ética e a ação estética estão integradas já no
nascedouro da obra, não a posteriori (KAC, 2007).

Em algumas de suas obras ele desestabiliza a ideia do controle ao criar seres
culturais; como em Lance 36, por ele assim definida:
Uma partida para jogadores fantasmas, uma afirmação filosófica revelada
por uma planta, um processo escultural que explora a poética da vida
real e da evolução. Essa instalação dá procedimento à minha contínua
intervenção nos limites entre o ser vivo (animais humanos e não
humanos) e o não vivo (máquinas, redes). Colocando em xeque noções
tradicionais, a obra revela a natureza como uma arena para a produção
de conflitos ideológicos, e as ciências físicas como um locus para a
criação de ficções científicas (KAC, 2004b).

Desestabilização, des-controle do natural; arte como força de inscrição de
sentidos outros, vida como descontrole, como nomadismo, transformação, e novo.
Buscar por uma vida que se desfaça do que a aprisiona, que se invente em
modos e formas de ser e se descubra pura imanência, potências. Uma vida:
determinabilidade transcendental da imanência como vida singular, sua natureza
absolutamente virtual e o seu definir-se somente através dessa virtualidade.

V i d a   c omo   ime d i a t e z a   a b s o l u t a ,   v i t a l i smo :   p u r a   c o n t emp l a ç ã o   s em
conhecimento, potência sem ação. Uma vida que não consista somente no seu
confronto com a morte e uma imanência que não volte a produzir transcendência.
“A vida beata jaz agora sobre o mesmo terreno em que se move o corpo biopolítico
do ocidente” (AGAMBEN, 1993, p. 173).

O pensamento a respeito da vida criada escapando...

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Presença, 1993.
_____. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2002.
_____.  Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.
_____. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34, 1997. v. 4
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988.
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REU, Sorocaba, SP, v. 37, n. 2, p. 203-217, dez. 2011
Alda Regina Tognini Romaguera / Antonio Carlos Rodrigues de AmorimREU, Sorocaba, SP, v. 37, n. 2, p. 203-217, dez. 2011
_____. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.
_____. Imanência: uma vida... Educação e realidade, Porto Alegre, RS, v. 27, n. 2, p. 10-7,
jul/dez 2002.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
v. 1
_____.  A vida: a experiência e a ciência. In: ___. Ditos e escritos. Arqueologia das ciências e
história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção dos textos Manoel Barros da
Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. v. II
KAC, Eduardo. Luz & letra. Ensaios de arte, literatura e comunicação. Rio de Janeiro: Contra
Capa, 2004a.
_____. LANCE 36 [MOVE 36]. Tradução Carlos Machado. Originalmente publicada em Oroboro,
Curitiba, n. 1, p. 34-37, 2004b. Disponível em: <http://www.ekac.org/
move36.portuguese.html> Acesso em: 25 ago. 2011.
_____. Entrevista concedida a Eduardo Kac por Marta Borges, 2004. Disponível em:
<http://www.artes.ucp.pt/artes_digitais/index.php/entrevistas/21-entrevista-a-eduardokac#_ftn1> Acesso em: 25 ago. 2011.
_____. A arte transgênica. (Entrevista concedida a Dolores Galindo).  História, ciências,
saúde – Manguinhos, v. 13 (suplemento), p. 247-56,  out. 2006. Disponível em: <http://
www.scielo.br/pdf/hcsm/v13s0/14.pdf> Acesso em: 25 ago. 2011.
_____. Entrevista concedida a Antonio Fernando Cascais.  Interact, Revista online de arte,
cultura e tecnologia, CECL - Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens Universidade
Nova de Lisboa, n. 14, julho de 2007. Disponível em: <http://www.interact.com.pt/memory/
14/html/interact14_sub_40_pt.html> Acesso em: 25 ago. 2011.
_____. Natural History of the Enigma.  Exposição. Weisman Art Museum, Minneapolis, 2009.
Disponível em: <http://www.ekac.org/nat.hist.enig.html> Acesso em: 25 ago. 2011.
_____. GFP Bunny: a coelhinha transgênica. Tradução Irene Machado. (Originalmente
publicado em Dobrila, Peter T.; Kostic, Aleksandra (eds.), Eduardo Kac: Telepresence,
Biotelematics, and Transgenic Art Maribor, Slovenia: Kibla, 2000, p. 101-131). Galáxia: Revista
Transdisciplinar de Comunicação, Semiótica, Cultura, São Paulo, n. 3, p. 35-58, 2002.
Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/viewFile/1265/768>
Acesso em: 25 ago. 2011.
KAC, Eduardo; RONELL, Avital.  Life extreme: an illustrated guide to new life. Paris:
Disvoir, 2007.
LEVY, José Alberto. A Bioarte.  International Journal of Biosafety and Biosecurity, Rio de
Janeiro: Universidade Federal de Rio Grande – FURG - IJBB, v. 1, n. 1, p. 60-72, 2010.
Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/intbiosafetybiosecurity/article/viewFile/
7325/pdf_3> Acesso em: 25 ago. 2011.
PELBART, Peter Paul. Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.
ZOURABICHVILI, François.  O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2004.

Saudação Ambientalista, Milton.

Tuesday, April 3, 2012

Artigo Científico Revista UNISO, O que é Ser Geógrafo, Rodrigo Barchi


 O QUE É SER GEÓGRAFO
AB’SABER, Aziz Nacib. O que é ser geógrafo: memórias profissionais de Aziz Ab’Saber
em depoimento a Cynara Menezes. Rio de Janeiro: Record, 2007. 207 p.
Rodrigo Barchi*
 Se encontrarmos um dia uma severa crítica à situação política e social brasileira
contemporânea, assinada por um tal de Antonio Natércio de Almeida, com certeza, é
porque foi escrita pelo geólogo e geomorfólogo Aziz Nacib Ab’Saber, em um momento
de revolta e tristeza. Esse pseudônimo – cujas iniciais tem as mesmas letras do nome
verdadeiro – foi usado para um relatório geológico escrito por ele para evidenciar a
descoberta de petróleo no Rio Grande do Norte, mas não podia assinar seu próprio
nome devido ao fato de não ser formado como geólogo e sim, como geógrafo.
 E é como geógrafo que Aziz dá o seu depoimento à jornalista Cynara Menezes nesse
fabuloso livro da coleção “O que é ser?”, da Editora Record, lançado em 2007. Em
pouco mais de 160 páginas, ele nos trás inúmeras recordações de sua vida, não só
profissional (como sugere o subtítulo do livro), mas sua infância, sua formação, seus
trabalhos,viagens, pesquisas, teorias e posição política em relação à educação e à
ética.
 O livro é dividido em três partes, sendo que a primeira é onde Aziz conta sobre sua
formação e seu trabalho como professor e pesquisador dentro da Geografia. A segunda,
é onde desabafa sobre as questões éticas que o afligiram e ainda afligem durante
sua vida. A terceira e última parte é constituída por uma relação de publicações do
autor, assim como de uma lista de instituições de ensino superior ao redor do Brasil.
 Em cada um dos 39 trechos em que foi dividido o seu depoimento, ele não deixa de
falar das viagens que fez. As quais começaram cedo, já que, de São Luiz do Paraitinga
(sua cidade natal), até Ubatuba, em lombo de cavalo, viajou com sua família ainda
criança. Depois, sua ida para Caçapava, aos seis anos (e a tristeza que isso lhe representou,
por ter abandonado a bucólica cidade histórica do Vale do Paraíba, pela qual
tem um enorme apreço). E enquanto adolescente, para a capital paulista, para estudar.
 Aziz conta que, no início de carreira como professor secundário e universitário,
foram quase diárias as suas viagens a Campinas e Sorocaba – onde trabalhou por alguns
* Mestre em Educação pela UNISO. Especialista em Educação Ambiental (USP - São Carlos).
E-mail: rbarchicore@uol.com.br
Revista de Estudos Universitários, Sorocaba, SP, v.34, n.1, p.145-149, junho 2008 anos e recebeu, em outubro de 2000, o título de Doutor Honoris Causa, por ocasião da
abertura do 3º encontro de Pesquisadores e Iniciação Científica da Universidade de
Sorocaba – além de seu trânsito por vários bairros de São Paulo, pois tinha que dar
aulas em lugares dispersos.
 E, em anos posteriores, quando já havia consolidado seu nome como pesquisador,
suas viagens pelo Brasil tornaram-se mais freqüentes: seja para trabalhar no Rio Grande
do Sul, para pesquisar o semi-árido nordestino, a Amazônia ou o Pantanal, entre
outros locais. Somente quando beirou os 50 anos, é que conseguiu começar suas viagens
ao exterior: França, Egito, Itália, Portugal, México, Peru, Colômbia, Suíça, Cuba,
Síria, Líbano, entre outros países. Credita essa demora à falta de recursos e financiamentos
de órgãos de pesquisa que não lhe davam aval.
 Escolheu a Geografia pelo fato de, na época de estudante, não poder ter todos os
livros necessários para se tornar um bom historiador, além de ter aproveitado o seu
tempo na universidade observando as próprias paisagens e modificações da cidade de
São Paulo.
 E foi após ter terminado a especialização que Aziz conseguiu trabalhar na Universidade
que o havia formado: a USP. Mas entrou trabalhando como jardineiro. Na realidade,
nunca cuidou de jardim algum, mas foi trabalhar como assistente de um dos professores
do Departamento de Geografia e Paleontologia. Meses depois, devido à indignação
de alguns professores, acabou conseguindo um cargo como prático de laboratório,
até conseguir sua livre docência, em 1965, nove anos após ter se tornado doutor.
Mas, antes do seu ingresso definitivo, ele lembra que repetiu o percurso de milhares
de professores que somente conseguem se sustentar com aulas dispersas em diferentes
escolas e instituições de ensino superior, ganhando pouco e viajando incessantemente.
 Devido às lembranças das dificuldades em sua carreira profissional, alerta os profissionais
da área da Geografia para não sonharem fi car ricos, pois sucesso financeiro
somente se conseguirem bons empregos em órgãos governamentais. O que também é
um risco, pois se de um lado esses geógrafos estatais conseguiram êxito, do outro
geralmente são criticados pela falta de ética, devido à conivência com trabalhos de
impacto ambiental que não observam as mais diversas facetas das conseqüências de
um empreendimento, mas que seguem seqüência devido às pressões “de cima”.
 Entre os lugares onde ele trabalhou, estão: o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística; PUC de Campinas; Faculdade Cásper Líbero; Faculdade de Sorocaba; Universidade
Federal do Rio Grande do Sul; UNESP de São José do Rio Preto e de Rio Claro;
no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico
Revista de Estudos Universitários, Sorocaba, SP, v.34, n.1, p.145-149, junho 2008 (CONDEPHAAT), da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (onde colaborou com
o tombamento da Juréia, e das Serras do Japi e do Mar, entre outros); para a Companhia
Vale do Rio Doce, em Carajás (sendo uma das vozes contrárias à sua privatização);
e para o antigo Projeto Floram, entre outros.
 Devido a esse vasto percurso, teve contato direto com os mais diversos pensadores
brasileiros e estrangeiros, das mais diversas áreas do conhecimento. Entre eles, os
geógrafos franceses Max Sorre, Francis Ruellan, Pierre Monberg, Pierre Deffontaines,
Jean Dresch e Jean Tricart (sendo que foram deste último os trabalhos que mais serviram
de base teórica para Aziz); o sociólogo Florestan Fernandes, o historiador Sérgio
Buarque de Holanda, e os geógrafos brasileiros Orlando Valverde, Milton Santos, Manuel
Correia de Andrade e Aroldo de Azevedo.
 Esses mais diversos contatos fi zeram com que Aziz retomasse a idéia da
transversalidade em diversos momentos do seu depoimento, dando destaque à sua
formação interdisciplinar, já que na USP havia estudado História, Sociologia, Antropologia.
Além da própria gama de conhecimentos diferentes que envolvem a Geografia
como Geologia, Geomorfologia, Geofísica, Climatologia, Meteorologia, Biologia, Ecologia,
Economia, Demografia, Geopolítica, além dos próprios tópicos específicos de
Geografia Urbana, Agrária e Industrial.
 Seja explicando sobre a formação dos manguezais, enfatizando como ocorre a
argilização das rochas cristalinas devido à tropicalidade, e a necessidade das águas
salinas para a formação das planícies fl uvio-marinhas; seja para se conhecer as culturas
locais através das conversas cotidianas em bares, “aquilatando” as fácies de historiador
e jornalista (que aprendeu com Sérgio Buarque de Holanda, em Sorocaba); seja
tombando serras, escarpas, fl orestas, rios e teatros; ou utilizando todos os documentos
possíveis – cartas, plantas, mapas, imagens de radar e de satélite – para uma pesquisa
em Geografi a, recusando a simples linearidade de uma área, Aziz sempre retoma
a importância do entroncamento entre as mais diversas áreas.
 Um aspecto importante destacado por ele no contato entre os conhecimentos, é a
contribuição da literatura aos estudos regionais do Brasil. Dos romances de Graciliano
Ramos, Euclides da Cunha, Júlio Ribeiro, Dalcídio Jurandir, José Lins do Rego, Jorge
Amado, até as obras de enfoque cultural de Gylberto Freyre, Josué de Castro, Caio
Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda, todas contribuíram enormemente para o
entendimento do país.
 E a contribuição de Aziz Ab’Saber?
 Além das inúmeras pesquisas geomorfológicas, e da conceituação de domínios
morfoclimáticos, o próprio reconhece que a sua mais importante teoria é aquela em
que fala dos redutos. Como diz Cynara Menezes na apresentação do livro, ele trabalha
Revista de Estudos Universitários, Sorocaba, SP, v.34, n.1, p.145-149, junho 2008 como se fosse um detetive da história do território brasileiro, descobrindo, em algumas
zonas, faixas de uma outra vegetação – os chamados resquícios de paleoclimas –
indicando antigas áreas de securas onde hoje existem exuberantes fl orestas.
 Essa noção dos redutos Aziz só pôde elaborar graças a uma outra contribuição sua à
ciência, que é a idéia de “stone lines” (“linhas de pedra”), que são faixas de rocha
fragmentada e cascalho entre duas faixas de solo, que nos remetem a pensar em chãos
pedregosos de áreas secas em outros períodos geológicos.
 Alerta para o fato de não podermos confundir a Teoria dos Redutos, com Teoria dos
Refúgios (creditada ao biólogo Paulo Emílio Vanzolini), já que somente animais podem
se refugiar. Conforme o clima mudasse para mais seco, os animais refugiavam-se nos
redutos de fl oresta que sobrassem. Períodos de seca que eram causados pela diminuição
do nível dos mares, em períodos glaciais, que diminuíam consideravelmente o
índice de precipitação pluvial no interior dos continentes.
 Mas, além de ser reconhecidamente um dos maiores cientistas e intelectuais brasileiros,
é também um militante social e ecológico. Entre os episódios de sua ação política,
estão: o tombamento das serras do Japi e do Mar; sua luta pela não implementação
de usinas nucleares e megapólos turísticos na região da Juréia; suas críticas ácidas e
constantes à transposição do Rio São Francisco; a banalização e equívocos cometidos
pelos entusiastas do aquecimento global; a denúncia da destruição das paisagens brasileiras;
e sua luta pela implantação das chamadas “bibliotecas sociais” por todo o
país.
 Militância que transparece como um exercício de ética, a qual, segundo ele, deve
ser intrínseca à vida do geógrafo. O seu caráter ético deve estar no fato de que o
profi ssional da área deve estar sempre atento aos acontecimentos globais e locais, ou
seja, a história em processo. Deve ter em mãos todos os livros, documentos e fatos da
história cotidiana para estar bem informado, para poder ter a competência técnica
necessária ao envolvimento político dos geógrafos. O qual deve ser no sentido
humanístico e ético, em defesa dos carente, dos milhões que estão abaixo da linha da
pobreza. Com os quais Aziz muito se identifi ca, devido à sua humilde origem.
 Aziz ainda critica a falta de honestidade nas pesquisas e trabalhos acadêmicos,
principalmente no que se refere aos créditos das fontes de uma investigação científi ca.
Além da fogueira das vaidades acadêmica que é capaz de deletar bons pesquisadores
em favor de interesses outros não ao desenvolvimento técnico-científi co.
 A principal ocupação dos geógrafos é a educação. O que implica, para ele, em uma
existência simples, já que ele mesmo trabalhou durante muito tempo nessa área –
“Trabalhei tanto que quase morri!” – e é uma das fundamentais fontes para a Geografia
Revista de Estudos Universitários, Sorocaba, SP, v.34, n.1, p.145-149, junho 2008 escolar. Mas que não isenta de responsabilidade ética e humana – que devem presidir o
pensamento das pessoas mais esclarecidas – os profissionais da área.
Responsabilidade que o deixa desesperado, mas ao mesmo tempo aliviado, pois, se
sempre foi ouvido – muitas vezes atendido e outras vezes não – se orgulha, pelo menos,
de ter seus pareceres independentes de organizações e fomentadores de pesquisa.
Responsabilidade ligada a uma consciência técnica, científica, jurídica, cultural,
ambiental, ética e humanitária, que Aziz pede à sociedade, e que diz sentido a alguém
ser geógrafo.
Revista de Estudos Universitários, Sorocaba, SP, v.34, n.1, p.145-149, junho 2008

Agradeço ao professor Marcos Reigota, que autorizou a publicação.

uniso

Saudação Ambientalista, Milton. Gestor Ambiental. 

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